Ficha -
Título: As brumas de Avalon - série
- A Senhora da Magia - 248 páginas
- A Grande-Rainha - 229 páginas
- O Gamo-Rei - 211 páginas
- O Prisioneiro da Árvore - 239 páginas
Autor: Marion Zimmer Bradley
Ano de publicação: 1982
Editora: Imago Editora
[Atualização em 2021: recentemente eu vi matérias em que a filha de Marion Zimmer Bradley acusa a mãe e o pai de pedofilia. Eu não consegui encontrar maiores informações sobre, mas achei melhor avisar que, quando escrevi essa resenha, em 2016, eu não sabia do histórico da autora e achei melhor avisar o leitor daqui também.]
As
brumas de Avalon é uma
quadrilogia que faz parte do Ciclo de Avalon,
um conjunto de livros
que contam a história da
Bretanha, sob o ponto de vista de personagens femininas. Essa também é a proposta de Marion Zimmer Bradley aqui: contar a
lenda de Artur sob o ponto
de vistas das muitas mulheres que, de uma forma ou de outra,
influenciaram o destino da Bretanha, tendo como pano de fundo o
crescimento do Cristianismo e sua dominação dos territórios e
religiões pagãs. A
maior parte das personagens femininas que aparecem no livro são
seguidoras da Antiga Religião, que segue a Grande Deusa.
Os
livros seguirão a trajetória de Artur desde os eventos que tornaram
possível seu nascimento, sua ascensão e queda como Grande-Rei e sua
morte. E isso não é spoiler,
porque está na lenda.
Eu
vou falar rapidamente sobre os dois primeiros livros, que são os que
preparam o caminho e apresentam os elementos mais interessantes. Os
dois últimos livros eu vou deixar um pouco de lado, por razão de conterem muitas informações que
estragariam a experiência de leitura.
Livro
um - A Senhora da Magia
"Em
vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga,
rainha. (...) E agora que o mundo está mudado (...) é preciso
contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem
por toda parte os seus santos e suas lendas. (...) Talvez a verdade
se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos
padres, e o caminho para Avalon, perdido para sempre nas brumas do
Mar do Verão.
Mas
esta é a minha verdade; eu, que sou Morgana, conto-vos estas coisas,
Morgana que em tempos mais recentes foi chamada Morgana, a Fada."
No
primeiro livro, conhecemos Viviane, a Grande Sacerdotisa de Avalon.
Ela é uma mulher pequena e poderosa, que deseja salvar a Bretanha
dos saxões e, ao mesmo tempo, garantir que essa terra seja governada
por um rei fiel tanto à Antiga Religião, quanto ao Deus Cristão.
Para isso, ela visita sua irmã, Igraine, e lhe diz que esta deve dar
à luz um menino, que será educado entre os druídas e se tornará
Grande-Rei da Bretanha. Igraine, que não acredita que seu marido,
Gorlóis, seja eleito herdeiro do atual rei, é avisada que conhecerá
outro homem, este sim herdeiro do rei, e que deverá ter um filho com
ele.
A
ideia da traição desagrada Igraine, mas as circunstâncias a forçam
a tomar uma posição. Quando seu marido é morto em batalha e
Igraine se casa com Uther Pendragon,
eles geram Gwydion, que mais tarde seria chamado Artur pelos
cristãos.
Quando
seus filhos, Artur, filho de Uther, e Morgana, filha de Gorlois,
chegam à idade considerada ideal para iniciar os aprendizados da
Antiga Religião, Igraine precisa entregá-los para seus destinos.
Artur é levado por Taliesin, o Merlin da Bretanha, para ser criado
entre os druídas. Morgana é levada por Viviane, para Avalon, para
se tornar a próxima sacerdotisa.
Os
dois irmãos são, então, criados separados, sem qualquer
contato durante os anos de crescimento. No entanto, no dia da coração
de Artur, no qual ele deve prometer ser leal à Avalon e impedir que
as religiões pagãs sejam condenadas e esquecidas pelos padres
cristãos, os destinos dos irmãos voltam a se cruzar.
Livro
dois – A Grande-Rainha
"‒
(...) Um rei deve proteger seu povo dos invasores, dos estrangeiros e
chefiá-los na sua defesa. O rei tem de ser o primeiro a colocar-se
entre a pátria e todo o perigo, assim como o camponês se levanta
para defender suas campos contra qualquer ladrão. Mas não é seu
dever proibir ao povo aquilo que, no mais fundo do coração, esse
povo deseja."
Começando
apenas alguns meses após o término do primeiro livro, aqui vamos
acompanhar a trajetória de Morgana, após ela ter abandonado a ilha
de Avalon, rebelando-se contra a vontade da Deusa, e de Viviane.
Também
vamos conhecer outra personagem que terá grande importância na vida
de Artur, sua esposa Guinevere – ou Gwenhwyfar, como será chamada
a maior parte das vezes. Gwenhwyfar é uma dama cristã e muito
religiosa, que é
dada em casamento como parte de um acordo que garantiria a seu
marido, o rei, os cavalos de seu pai. No entanto, pouco antes de ser
levada ao altar, seu coração é capturado pelo jovem capitão da
guarda de Artur, o belo e forte Lancelote.
Gwenhwyfar
se torna cada vez mais fervorosa em sua fé, acreditando estar sendo
punida com infertilidade, por causa de seu amor por Lancelote. Ela
convence Artur a abandonar os símbolos pagãos e levar a cruz do
Cristo em batalha. Artur, que não é um homem dado a discussões,
faz o que a esposa lhe pede e sua atitude é tida como traição do
seu juramento à Avalon.
O
que achei
Para
começar, não sei se os livros vão agradar ao público em geral.
Como o livro foi escrito há vários anos e não chega nem perto da
popularidade de livros como O
senhor dos aneis,
e mesmo da trilogia de Bernard Cornwell, As
crônicas de Arthur,
que usam a mesma lenda como pano de fundo, creio estar certa ao
afirmar que As
brumas de Avalon acabam
sendo deixadas de lado, e
isso é injusto.
Vale
lembrar que essa é uma série escrita por uma mulher, com
personagens femininas fortes que têm real poder sobre os destinos dos personagens masculinos.
Além
disso, trata-se de uma história que não lida
com o
Cristianismo com a devoção a que estamos acostumados (quem já leu
As
crônicas de Nárnia,
de C. S. Lewis, vai ter uma ideia do que estou falando).
Eu,
que não sou mais cristã, que sou feminista, e tenho interesse pelas
religiões pagãs (pelo
conhecimento histórico atrelado
a elas),
gostei muito de As
Brumas
de Avalon. Mas você não precisa de tudo isso para gostar. Basta ter a mente aberta e gostar de histórias e personagens bem desenvolvidos. E de uma boa dose de fantasia medieval.
Essa é uma história poderosa, com personagens fantásticos – e
incluo os personagens masculinos. Todos são bem descritos e
têm
suas motivações bem construídas. E mesmo a personagem mais odiada – Gwenhwyfar – pode ser tratada com justiça quanto
ao
desenvolvimento narrativo e no final eu cheguei a gostar dela.
O
que eu não gostei é que em vários momentos a história se arrasta
sem que nada de muito interessante esteja acontecendo. Algumas
descrições de feitiços e Visões que algumas personagens têm, são
um pouco confusas, mas nada que chegue a atrapalhar a narrativa. No
entanto, é preciso levar em consideração que a história narrada
nesses quatro livros se passa no decorrer de vários
anos. Como eu disse, Marion
narra desde
antes do nascimento de Artur até sua morte.
Adorei
ler sobre como a figura da mulher era importante nas religiões
antigas, a dádiva da fertilidade, e o equilíbrio com a natureza.
Por isso mesmo, eu
não conseguia desgrudar os olhos da página sempre que a narração
se concentrava em Morgana. Eu amei
essa personagem. Ela é forte e frágil, inteligente e ingênua,
poderosa e mortal. Como
faz falta personagens assim! Sério,
quando foi a última vez em que você leu uma personagem feminina que
não te desse vontade de bater a cabeça na parede? E não precisa
ser feminista para isso, amiga.
Sobre
a minha edição de "O Prisioneiro da Árvore", livro
quatro.
Eu
não comprei esses livros, mas os ganhei de presente de uma colega de
trabalho, em 2014. Um presente que me deixou muito feliz, mesmo que
esses fossem livros usados. Eu li o primeiro livro em 2015, o segundo
em fevereiro de 2016, e o terceiro agora em setembro. E então,
animada com a história, comecei o quarto logo em seguida. Tudo ia
muito bem, eu já declarando amor eterno à saga de Morgana, quando
chego nas páginas 162 e 163 e encontro isso:
E
ficou pior, porque o mesmo problema se repetiu nas páginas 166-167,
170-171 e 174-175.
...
Eu
fiquei puta! Porque eu já tinha perdoado erros de digitação,
falhas na impressão que comiam pedaços de palavras e frases... mas
oito páginas inteiras borradas?
Aí
já é
demais! Mandei
e-mail para a editora, mas foi a mesma coisa que nada.
Eu
sou perfeccionista e muito chata com meus livros. E pensar em guardar
esses livros desse jeito me chateia. Claro que eu posso passar
adiante, mas não seria justo com quem receber. O que me deixa
aprisionada a um livro que não dá para ler. Claro que eu dei um
jeito, mas é aquela coisa... depois que a gente baixa PDF, a gente
que é ruim!
Enfim, só queria deixar aqui minha revolta e um alerta
para vocês: exijam excelência das editoras, porque a gente paga caro
nos livros delas!
De
qualquer forma...
Eu
realmente espero que vocês dêem uma chance aos livros, mesmo quando
a leitura parecer arrastada, por que é uma daquelas histórias que vão acrescentar alguma coisa na sua vida.
Essa história tem tudo, intriga política,
magia, amor, traição, incesto, discussões teológicas, liberdade
feminina, construção de personagens e estilo narrativo! É muito
bom!
E
boa sorte na edição de vocês! A minha é de 2008 e sei que tem
outras mais novas por aí.
Os quatro livros foram transformados em filme em 2001, que foi o meu primeiro contato com a obra. O filme tem quase 3 horas de duração, e resume a história de Artur e Morgana da melhor forma possível. Ele foi lançado direto em vídeo e DVD, então não faço ideia de onde vocês podem conseguir, mas sei que vocês podem dar um jeito nisso ;)
*
E
você, já leu As
brumas de Avalon? Gostou? Deixe seu comentário e vamos conversar a respeito :)
Tenham
uma boa semana e até mais!