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sábado, 10 de dezembro de 2016

Animais fantásticos e onde habitam - David Yates


Anunciado como um spin off da série Harry Potter nos cinemas, o filme sofreu no início com o desconhecimento de algumas pessoas a respeito de sua ligação com o livro de mesmo nome, lançado anos atrás como material extra da série original. Afinal, inicialmente foi anunciado como uma nova trilogia e as pessoas se perguntavam se aconteceria a mesma coisa que aconteceu com a trilogia cinematrográfia de O hobbit, que adaptava um livro de 300 páginas.
A preocupação é compreensível, mas gerada pelo desconhecimento. O livro Animais fantásticos e onde habitam foi lançado como um paradidático dentro do universo, um catálogo de criaturas mágicas que o zoologista Newt Scamander descobriu durante sua juventude e reuniu em um livro. Parte da renda das vendas deste e de Quadribol através dos séculos, outro livro extra, era convertido para a Fundação Lumus, criada por J. K. Rowling para ajudar crianças carentes. O interessante do livro é que ele era apresentado como sendo o exemplar de Harry durante seus anos de estudo em Hogwarts.



A história do filme se passa em 1926 e começa quando Newt Scamander chega a Nova York com sua maleta cheia de criaturas mágicas que ele vem catalogando. Ele planeja libertar um dos animais em seu habitat natural, após recuperá-lo de um contrabando. Chegando nesse novo mundo, desconhecido tanto para ele quanto para os fãs, que estavam acostumados à Londres dos anos 90, Newt logo se depara com um grupo de "trouxas" que está divulgando a existência de bruxos e exigindo uma "segunda Salem" para combatê-los. Enquanto assiste à cena curiosa, Newt percebe que um dos seus animais deu uma escapada. Trata-se do pelúcio, um bichinho danado que entra no prédio do banco e começa a coletar riquezas. Enquanto tenta pegá-lo, Newt conhece o padeiro Jacob Kowalski, que está ali para tentar empréstimo e abrir sua padaria.



Envolvido na busca de Newt de maneira desastrada, Jacob acaba trocando as maletas de ambos sem perceber quando tenta escapar e, ao abrir-la... deixa várias criaturas de Newt escapar.
Newt precisa, então, correr contra o tempo para recuperar os animais, pois a presença deles pode denunciar a existência do mundo bruxo e as leis americanas sobre o sigilo são muito rígidas. Além disso, a chegada de Newt a Nova York e toda a confusão que isso gera, coincidem com os ataques de um famoso bruxo das trevas que atuava na Europa. Logo, Newt se vê alvo da perseguição do Congresso Bruxo - a Macusa - e seus animais correm real perigo.
Não demora muito para perceber que a premissa inicial de caçar animais fantásticos por Nova York não é o verdadeiro argumento do filme, pois a presença do bruxo Grindelwald, ainda que apenas por uma atmosfera sinistra que permeia toda a aventura, torna tudo mais sério e justifica a produção de outras quatro continuações.



Newt é um bruxo comum, com dificuldade para olhar as pessoas nos olhos, mas muito próximo de seus animais. Seu envolvimento com as questões políticas de Nova York é mero acidente, bem diferente do fato "O escolhido" que perseguiu Harry Potter por quase toda sua vida. A diferença entre as duas franquias do Universo Bruxo de J. K. Rowling, também aparece no tom adulto dessa aventura.
Sua relação com os demais personagens servem como um complemento à sua própria personalidade, reclusa e nerd. Jacob é um no-maj (trouxa americano) divertido e que se encanta com o mundo bruxo, depois de uma primeira impressão assustadora. Tina, uma ex-auror buscando redenção, é uma mulher forte e inteligente, que não se importa em quebrar algumas regras para defender aquilo que acredita. E Queenie, irmã de Tina, é uma mulher doce e de ar inocente, mas passa longe do arquétipo "mulher loura burra" que alguns podem estar acostumados. Ela é uma oclumente e representa bem a distância que os bruxos americanos preferem manter dos no-majs. São dois mundos bem separados.
Outra prova de que esse filme veio para falar de temas mais sérios e expandir os conhecimentos dos fãs de Harry Potter é a presença de Percival Graves (Collin Farrell) e Credence (Ezra Miller), e a busca deles por uma criança com poderes extraordinários.



Não vou entrar em mais detalhes, pois posso escorregar em um spoiler a qualquer momento. O caso é que o filme é muito bom, interessante, os animais são fantásticos, os personagens são apaixonantes e J. K. Rowling acertou de novo! Vale a pena ir ao cinema, vale a pena o 3D, vale a pena continuar apaixonada pelo mundo mágico!
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sábado, 28 de maio de 2016

Cormoram Strike 1: O chamado do Cuco - Robert Galbraith (J. K. Rowling)

FICHA

Título: O chamado do Cuco
Autor: Robert Galbraith (pseudônimo de J. K. Rowling)
Gênero: Suspense
Público: Adulto
Editora: Rocco
Páginas: 448
Formato lido: Digital

Observação: "O chamado do Cuco" é o primeiro romance de uma série estrelada pelo detetive Cormoran Strike.

*


Sinopse:

O detetive particular Cormoran Strike, um ex-membro do exército britânico. Ele teve que amputar uma perna após uma explosão quando estava em serviço e desde então tem que conviver com a prótese, dores constantes no que restou de sua perna e as lembranças da guerra no Afeganistão. Além disso, Cormoram não está se saindo muito bem na profissão que escolheu, com poucos clientes e muitas dívidas, e também está saindo de um relacionamento complicado.

À beira da falência, Cormoran recebe em seu escritório uma nova assistente temporária chamada Robin Ellacott. Prestes a se casar com Matthew e recém chegada a Londres, Robin precisa encontrar um emprego fixo e que pague bem... mas secretamente nutre o desejo de se tornar detetive particular.

Não diga!

Logo após a chegada de Robin, Strike recebe a visita de um novo cliente, John Bristow, que lhe pede para investigar as estranhas circunstâncias por trás do suicídio de sua irmã adotiva, a supermodelo Lula Landry.

Apesar de, a princípio, Strike achar que Lula realmente cometeu suicídio, logo ele descobre indícios de que o irmão dela pode ter razão em sua teoria solitária sobre assassinato.

Sobre os personagens

Cormoran Strike é um personagem inteligente e carismático, que funciona muito bem como protagonista e em vários momentos da leitura, sua presença foi a única coisa que me manteve presa na história. O início do livro é arrastado e pouco estimulante. Não fosse a capacidade já bastante conhecida da autora em tornar seus personagens tão cativantes e reais, o suspense criado não sustentaria o livro sozinho. Embora, justiça seja feita, com o decorrer da leitura e do desenvolvimento do crime, o livro fique cada vez mais instigante e você vai querer chegar até o final...

Além da criação de toda a história e da personalidade do protagonista, o que também funciona muito bem é a interação entre ele e a sua coadjuvante, Robin. Não há insinuação romântica entre eles - pelo menos não nesse primeiro livro. O que há de concreto entre eles é a evolução de estranheza para admiração e disto para uma amizade baseada em respeito mútuo.

Robin - escolha de nome recorrente para um sidekick - também é uma personagem interessante. Capaz de mostrar eficiência como secretária dentro do escritório e como assistente em campo. Além de eficiente, ela é engraçada, corajosa e inteligente, e sua relação com Strike - que prefere manter o profissional distante do pessoal - evolui de forma natural e convincente.

Sobre Lula Landry, a supermodelo que pode ter sido vítima de assassinato, descobrimos algumas coisas junto com Strike. Ela era negra, adotada por uma família que já havia perdido o primeiro filho, e desde pequena sempre teve problemas para se encaixar em um mundo branco e rico. Lula tinha problemas com o namorado viciado e lidava com a mídia da maneira meio atropelada que as grandes celebridades geralmente fazem. Ao longo da leitura, e das descobertas de Strike, fica perceptível a solidão e confusão constantes na vida dessa mulher, que sentia-se sufocada e deslocada na maioria de suas relações com outras pessoas. Mesmo já estando morta no início da história, ela é uma presença constante e significativa, e nos importamos com ela da mesma forma que Strike passa a se importar conforme avança na sua investigação.

Eu não li muitos livros de suspense, para ser sincera. Ainda nem conheço os clássicos livros sobre Sherlock Holmes (sir Arthur Conan Doyle)! Apenas posso me basear pela presunção aristocrática de Hercule Poirot (Agatha Christie) e pela presunção acadêmica de Robert Langdon (Dan Brown)... mas ainda assim vou me arriscar a dizer que Cormoran Strike é meu detetive favorito. Mais humano e real.


Conclusão

Esse é um livro que vale a pena ser lido. Não é um livro que vai mudar sua vida, não é um livro que vai te transformar em um fã de JK Rowling (afinal, se Harry Potter não fez isso, não há esperança para você), e não é um livro que vai entrar para história da literatura e do suspense. Mas é um livro bom, bem escrito, e que é eficaz em te puxar para dentro da história e fazer com que você se importe por aqueles personagens. Há drama, comédia, suspense e desenvolvimento de personagens - que, "na minha nada humilde opinião", é a especialidade da J. K. Rowling!

Para terminar, preciso deixar isso aqui, ou essa resenha não estará completa. Só leia quando tiver lido o livro - basta selecionar a área com o mouse:

[Spoiler]Ainda não decidi se gostei do desfecho do livro. Quero dizer, é interessante que o assassino seja aquela pessoa, mas não consegui deixar de pensar: "mas se até a polícia acreditava em suicídio, porque ele não deixou a história quieta? Se a POLÍCIA acreditava em suicídio, não tinha porque pensar em um suspeito... entende?[Spoiler]

Sem mais,

Obrigada por ler e por favor deixe seu comentário.

Até a próxima!

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domingo, 13 de abril de 2014

Morte súbita - J. K. Rowling


O primeiro romance da autora da série Harry Potter, que se arrastou por sete livros e mais três livros complementares (Animais fantásticos & onde habitam, Quadribol através dos séculos e Contos de Beedle, o Bardo) é completamente diferente daquilo que seus fãs estão habituados. À época de seu lançamento, e sob a sombra daqueles que acham que J. K. Rowling deu apenas a sorte de escrever o livro certo para o público certo, Morte súbita carregou nos ombros a responsabilidade de provar que JK não é apenas uma boa escritora, mas que sua carreira pode sobreviver após, apesar e além de Harry Potter.
O livro foi lançado em 2012, e acredito que muita gente esteve pensando exatamente como eu. Se por um lado não se aguentavam de vontade de comprar o livro e descobrir como ele era, por outro tinham receio de não sentir a mesma emoção na leitura dele, que sentiram ao ler Harry Potter.
De fato, não senti as mesmas emoções, mas isso não foi ruim. Como eu disse antes, Morte súbita é completamente diferente dos outros livros da autora. É um livro para o público adulto, ou o público que cresceu lendo seus livros, e procura discutir questões como a vaidade e a hipocrisia da sociedade.
Para isso, JK escolheu como cenário um pequeno vilarejo fictício no interior da Inglaterra, chamada Pagford. A comunidade parece pacífica, conservadora e de certa maneira orgulha-se de seu isolamento, o que a ajuda a preservar seu estilo de vida. Só tem uma coisa que incomoda os moradores de Pegford, uma mancha em sua sociedade que alguns acreditam que deve ser eliminada o quanto antes. Trata-se de Fields, um bairro pobre na divisa do vilarejo com a cidade de Yarvil, onde vivem as pessoas marginalizadas, os viciados e criminosos.
É nesse bairro que nasce Barry Fairbrother, um dos conselheiros do vilarejo, que tem a capacidade de conquistar as pessoas com seu jeito fácil e brincalhão. Ele é considerado um dos poucos casos de pessoas nascidas em Fields que conseguiram “vencer” na vida, e tem dedicado seu tempo e influência, defendendo a permanência de Fields como parte de Pagford (seus adversários defendem que Fields passe a ser anexado às fronteiras de Yarvil, tirando do vilarejo a responsabilidades pelo bairro e pelas pessoas que vivem nele).

Logo no início do livro, porém, Barry Fairbrother morre e é aí que a autora apresenta aos leitores a comunidade e as pessoas que nela vivem, mostrando as diferentes reações à morte desse homem tão importante, e dando início à uma disputa política para substituílo no Conselho Distrital.
De um lado, temos as pessoas que o amavam, que decidem defender seus ideais. Do outro, seus inimigos políticos, ávidos pelo poder e em defesa da imagem imaculada de Pagford. E ainda há pessoas que não tiveram suas vidas influenciadas diretamente por Barry Fairbrother, mas que nem por isso devam ser ignoradas.
O ponto forte de JK é sua construção de personagens e a importância que ela dá aos seus conflitos internos, a aparência externa versus seus desejos mais íntimos. Se por um lado grande parte dos personagens não está onde gostaria, por outro lá há alguns muito satisfeitos em mostrar que são importantes, no controle das próprias vontades e inabaláveis em seus tetos de vidro.
J. K. decide contar essa história através de cenas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou uma série. Não é exatamente como o George R. R. Martim em "As crônicas de gelo e fogo" onde cada capítulo se refere a um personagem, mas o esquema é mais ou menos o mesmo. O livro é dividido em sete partes, cada uma subdividida por cenas marcadas por números romanos, sendo assim: Parte um, I, II, III, IV, etc. E cada uma dessas subdivisões se refere a um núcleo. Tem o núcleo da família Wall, o da família Mollison, o da família Weedon, o da família Jawanda, e por aí vai. A história vai se desenrolando lentamente, e cada coisa que acontece na cidade interfere de maneira diferente em cada uma dessas famílias. Não sei se vai agradar todo mundo, algumas pessoas preferem se apegar a um personagem e seguir a partir daí, mas eu acho que, quando você se acostumar logo de início com a narrativa, em algum momento vai se identificar com algum personagem.
Não sei se consigo falar sobre cada um dos personagens sem deixar esse post grande demais. Então, vou me focar em apenas um, Krystal Weedon, que representa todas as questões que me incomodaram durante a leitura. Não por ser mal trabalhadas, longe disso. Mas por lembrar situações que tenho assistido no “mundo real”.

O que eu amei sobre Morte súbita foi justamente essa proximidade com a realidade. Escolhendo uma pequena comunidade, JK Rowling conseguiu retratar um retrato muito maior da sociedade, e conseguiu trazer isso para perto dos leitores, mesmo aqueles que não vivem na Inglaterra, mesmo aqueles que não vivem em cidades pequenas, mesmo aqueles que nunca conheceram uma Krystal ou uma Terri ou um Robbie Weedon.
Morte súbita é um livro que fala sobre as pequenas falhas de caráter das pessoas, suas vaidades, seus egoísmos e suas hipocrisias. Mas também fala da sociedade, de como as pessoas preferem ignorar certos problemas, como as drogas e a desigualdade social, fingindo que o que falta aos outros é um pouco de autocontrole e senso crítico, e ignoram que talvez o que falte é um pouco de compaixão e humildade para enxergar os próprios defeitos.
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